www.nead.unama.br 

Universidade da Amaznia 
Duas Juzas 
de Machado de Assis 
NEAD  NCLEO DE EDUCAO A DISTNCIA 
Av. Alcindo Cacela, 287  Umarizal 
CEP: 66060-902 
Belm  Par 
Fones: (91) 210-3196 / 210-3181 
www.nead.unama.br 
E-mail: uvb@unama.br 


www.nead.unama.br 

Duas Juzas 

de Machado de Assis 

Uma era a Devoo de Nossa Senhora das Dores, outra era a Devoo de 
Nossa Senhora da Conceio, duas irmandades de damas estabelecidas na mesma 
igreja. Qual igreja? Este  justamente o ponto falho do meu conto; no posso 
lembrar-me em qual das nossas igrejas era. Mas, pensando bem, que necessidade 
h de saber-lhe o nome? Uma vez que eu diga os outros e todas as circunstncias 
do acontecimento, do caso, o resto pouco importa. 

No altar da esquerda,  entrada, ficava a imagem das Dores, e no da direita 
a da Conceio. Esta posio das duas imagens definia at certo ponto a das 
Devoes, que eram rivais. Rivalidade nestas obras de culto e religio no pode ou 
no deve dar de si se no maior zelo e esplendor. Era o que acontecia aqui. As duas 
Devoes brilhavam de ano para ano; e que era tanto mais admirvel quanto que o 
ardor fora quase repentino e recente. Durante longos anos, as duas associaes 
vegetaram na obscuridade; e, longe de serem contrrias, eram amigas, trocavam 
obsquios, emprestavam alfaias, as irms de uma iam, com as melhores toilettes, s 
festas da outra. 

Um dia, a Devoo das Dores elegeu para juza uma senhora D. Matilde, 
pessoa abastada, viva e fresca, ao mesmo tempo que a da Conceio punha  sua 
frente a esposa do comendador Nbrega, D. Romualda. O fim de ambas as 
Devoes era o mesmo: era dar mais alguma vida ao culto, desenvolv-lo, 
comunicar-lhe certo esplendor que no tinha. Ambas as juzas eram pessoas para 
isso, mas no corresponderam s esperanas. O que fizeram no seguinte ano foi 
pouco; e, ainda assim, nenhuma das Devoes pde dispensar os obsquios da 
congnere. Enfim, Roma no se fez num dia, repetiram as devotas de ambas, e 
esperaram. 

Na verdade, as duas juzas tinham distraes noutras partes; no podiam 
subitamente cortar por hbitos antigos. Note-se que eram amigas, andavam muita 
vez juntas, encontravam-se em bailes, e teatros. Eram tambm bonitas e vistosas; 
circunstncia que no determinara a eleio, mas agradou s eleitoras, to certo  
que a beleza no  s um ornato profano, e, posto que a religio exija 
principalmente a perfeio moral, os pintores no se esquecem de pr o 
arrependimento de Madalena dentro de belas formas. 

Vai seno quando, D. Matilde, presidindo a uma sesso de mesa 
administrativa da Devoo das Dores, disse que era preciso cuidar seriamente de 
levantar a associao. Todas as companheiras foram do mesmo parecer, com 
grande contentamento, porque realmente no desejavam outra coisa. Eram pessoas 
religiosas; e, salvo a secretria e tesoureira, viviam na obscuridade e no silncio. 

 As nossas festas, continuou D. Matilde, tm sido muito descuidadas. No 
vem quase ningum a elas; e da gente que vem pouca  a de certa ordem. Vamos 
trabalhar. A deste ano deve ser esplndida. H de pontificar monsenhor Lopes; 
estive ontem com ele. A orquestra deve ser de primeira qualidade; podemos ter uma 
cantora italiana. 
E foi por diante a juza, dando os primeiros lineamentos do programa. Em 
seguida, adotaram certas resolues:  alistar novas devotas  e D. Matilde 


 Eu saberei trabalhar muito mais. 
Era claro que a rivalidade e o despeito ardiam nelas. Por desgraa, tanto o 
dito de uma como o da outra correram mundo, e chegaram ao conhecimento de 
ambas; foi como lanar palha ao fogo. D. Romualda bradou em casa de uma amiga: 

 Vender a ltima jia? Talvez ela j tenha as suas empenhadas! 
E D. Matilde: 

 Creio, creio... Creio que trabalhe mais do que eu, mas h de ser de 
A festa das Dores foi realmente bonita; muita gente, boa msica, excelente 
sermo. A igreja estava tomada com um luxo desconhecido dos paroquianos. 
Alguns entendidos da matria calcularam as despesas e subiram a um algarismo 
muito alto. A impresso no se restringiu ao bairro, foi a outros; os jornais deram 
notcia minuciosa da festa, e o trouxe o nome de D. Matilde, dizendo que a 
esta senhora era devido aquele esplendor. Folgamos de ver, conclua aquele rgo 
religioso, folgamos de ver que uma senhora de to superiores qualidades emprega 


, a irritao no teve mais limites. No todos 
os nomes feios, mas aqueles que uma senhora educada pode dizer de outra, esses 
disse-os D. Romualda falando da juza das Dores  pretensiosa, velhusca, tola, 
intrometida, ridcula, namoradeira, e poucos mais. O marido procurava aquiet-la: 

 Mas, Romualda, para que h de voc irritar-se tanto assim? 
E batia o p, amarrotava a folha que tinha na mo. Chegou ao extremo de 
dar ordem para no receber mais o ; mas a idia de que podia merecer da 
folha alguma justia, quando chegasse a festa da Conceio, f-la retirar a ordem. 

Dali em diante, no se ocupou de outra coisa, seno de preparar uma festa 
que vencesse a das Dores, uma festa nica, admirvel. Convocou as irms, e disselhes 
francamente que no poderia ficar abaixo da outra Devoo; era preciso vencla, 
no igual-la; igual-la era pouco. 

E toca a trabalhar na coleta de donativos, na cobrana de anuidades. Nas 
ltimas semanas, o comendador Nbrega quase no pde ocupar-se de outra coisa, 
seno de ajudar a mulher nos preparos da grande festa. A igreja foi armada com 
uma perfeio que excedia a da festa das Dores. D. Romualda, a secretria, e duas 
zeladoras no saam de l; viam tudo, falavam de tudo, corriam tudo. A orquestra foi 
a melhor da cidade. Estava de passagem um bispo da ndia; alcanaram dele que 
pontificasse. O sermo foi incumbido a um beneditino de fama. Durante a ltima 
semana trabalhou a imprensa, anunciando a grande festa. 

D. Matilde caiu em mandar para as folhas algumas mofinas annimas, em 
que arga a juza da Conceio de ser dada  charlatanice e  inveja. Respondeu 
D. Romualda, tambm anonimamente algumas coisas duras; a outra voltou  carga, 
e recebeu nova rplica; e isto serviu ao esplendor da festividade. O efeito no podia 
ser maior, todas as folhas deram uma notcia, embora curta; o um longo 
artigo, dizendo que a festa da Conceio fora das melhores que se tinham dado no 
Rio de Janeiro, desde muitos anos. Citou tambm o nome de D. Romualda como o 
de uma senhora distinta pelas qualidades de esprito, como digna de apreo e louvor 
pelo zelo e piedade. Ao seu esforo, conclua a folha, devemos o prazer que 
tivemos no dia 8. Oxal muitas outras patrcias possam imit-la! 
Foi uma punhalada em D. Matilde. Trocaram-se os papis; ela agora  que 
deitava  outra os nomes mais cruis de um vocabulrio elegante. E jurava que a 
Devoo das Dores no ficaria vencida. Imaginou ento umas ladainhas aos 
sbados e contratou uma missa especial aos domingos, fazendo anunciar que era a 
missa aristocrtica da parquia. D. Romualda respondeu com outra missa, e uma 
prtica, depois da missa; alm disso, instituiu um ms de Maria, e convidou a melhor 
gente. 

Esta luta durou uns dois anos. No fim deles, D. Romualda, tendo dado  luz 
uma filha, morreu de parto, e a rival ficou s em campo. Vantagem do estmulo! To 
depressa morreu a juza da Conceio como a das Dores sentiu afrouxar o zelo, e j 
a primeira festa esteve muito aqum das anteriores. A segunda foi feita com outra 
juza, porque D. Matilde, alegando cansao, pediu dispensa do posto. 


www.nead.unama.br 

Um paroquiano curioso tratou de indagar, se alm das causas de estmulo 
religioso, alguma outra houve; e veio a saber que as duas damas, amigas ntimas, 
tinham tido uma pequena questo, por causa de um vestido. No se sabe qual delas 
ajustara primeiro um corte de vestido; sabe-se que o ajuste foi vago, tanto que o 
dono da loja imaginou ter as mos livres para vend-lo a outra pessoa. 

 A sua amiga, disse ele  outra, j aqui esteve e gostou muito dele. 
 Muito. E quis at lev-lo. 
Quando a primeira mandou buscar o vestido, soube que a amiga o 
comprara. A culpa, se a havia, era do vendedor; mas o vestido era para um baile, e 
no corpo de outra fez maravilhas; todos os jornais o descreveram, todos louvaram o 
bom gosto de uma senhora distinta, etc... Da um ressentimento, algumas palavras, 
frieza, separao. O paroquiano, que, alm de boticrio, era filsofo, tomou nota do 
caso para cont-lo aos amigos. Outros dizem que era tudo mentira dele. 

FIM 


